Respirou fundo, refletiu se deveria responder sinceramente. Se resolvesse pela sinceridade, responderia assim: “Eu sinto a incerteza. Em nada ter cor nem razão, sem motivo algum para soprar as nuvens. Deixei o meu dia nublar e o Sol encobrir, que é melhor assim. Eu preciso de um tempo! Preciso me afastar de tudo, viu? Eu só quero me conhecer um pouco. Ah minha amiga, você se lembra do que já passamos juntas, lembra-se bem? Eu ainda guardo os seus segredos, ainda conheço você. É só uma viagem, talvez nem seja longa, mas você já põe alguém em meu lugar. Mas ela também lhe serve, não? Todas as amizades são efêmeras, se não regar a intimidade. A minha ausência traz aridez e estranhamento, eu sei. Eu espero voltar um dia, eu espero que nada venha a mudar. E eu sei que vai.”
Mas Liana preferiu dizer que estava muito bem, e como estava o Pedro? O Pedro estava ótimo, é claro, muito bem na empresa, alguém tinha que pagar o cartão de crédito dela, disse Carla. Carla sempre fora assim, meio extravagante. Será que ela ignorava o espaço entre elas? Não, ela sabia, mas optava pela cegueira da superficialidade. Quem era Carla afinal? Uma grande amiga de Liana, da época de faculdade, seus mais memoráveis anos. Mas quem era Carla hoje?
Liana não pretendia estreitar laços quaisquer com ninguém naquele momento, no entanto, apesar da tagarelice e egoísmo irritante de Carla, ela já sentia uma espécie de saudades de simplesmente tê-la ali a sua frente. Que falta é capaz de nos fazer as trocas de favores que são as relações humanas, que falta meu Deus! desses sereszinhos humanos, que dependem e grudam na gente. Se Carla fosse menos tonta ela lhe perguntaria: “De quem você depende, minha amiga?” Certamente não era mais dela. Carla tinha Suzane. Vejo que vampirizar relações também é profissão de gente.
Carla enveredou a falar sobre a mãe do Pedro, isso seria muito mais longo do que Liana queria suportar. Ela fitou aquela amiga que não mais a conhecia. Uma estranha. Quis lhe confessar seus sentimentos e dúvidas, falar tudo de uma vez. Então Carla disse que estava indo ao shopping encontrar Suzane, Liana podia ir junto, pegariam um cineminha. Vejam como simples é a substituição. Liana não queria ir a cinema nenhum e tampouco lhe contar mais nada. Sendo assim, nada disse e tudo ficou para ser dito nunca.
Despediu-se, tinha que encontrar o banco aberto, e antes de partir deixou que seu olhar lhe segredasse: “Desprenda aqueles que você ama, deixe-os livres, acabará sem nenhum deles.”
E seguiu.