domingo, 26 de dezembro de 2010

Crônica natalina


O Natal é uma data muito especial, concordam? O evento pré-estabelecido mais popular de nossa cultura cristã. Adorado, principalmente, pelo setor comerciário, o natal é conhecido por ser um tempo de paz, amor...

Natal é tempo de despreendimento! Vamos às compras!

Você resolve comprar algum calçado. Entra numa loja apinhada de gente e logo se irrita porque nada tem preço. Procura um vendedor que está atendando mais 4 pessoas. Ele diz que já vai trazer os seus sapatos. Ele volta 15 minutos depois. Natal é tempo de compreensão! Você experimenta e precisa de um número menor. Espera mais 10 minutos porque o vendedor foi para o estoque e desapareceu por lá. Ele volta, voce faz o novo pedido. Após mais 15 minutos ele trás o sapato requerido, mas, que pena!, não tem mais na cor azul. Cresce um sentimento de revolta, você não precisa de uma sapatilha amarela e sim de uma azul. Mas natal é tempo de reflexão! Você pensa que depois de passar quase 1 hora nessa loja tem que comprar alguma coisa! Você sai com uma sapatilha amarela que nunca quis comprar, mas tudo bem! afinal, eles parcelaram em 4 vezes sem juros. O Natal é tempo de caridade!

Natal também é tempo de união entre as pessoas!

Você volta exausta e cheia de sacolas. Percebe que a fila para pegar um ônibus vai até o meio do terminal. Então, vamos em pé mesmo. O ônibus está lotado e faz muito calor. O idiota do motorista para em todos os pontos sabendo que não cabe mais ninguém no ônibus. As pessoas xingam o motorista. Um homem sobe no ônibus, não consegue entrar, óbvio!, e vai pendurado na porta. Ele diz que se o motorista fechar a porta comprará um problema com ele. As pessoas xingam a mãe do motorista. Um passageiro que estava sentado se oferece para segurar minhas sacolas. é natal. Natal é tempo de solidariedade!

Natal é tempo de sinceridade!

Você compra presentes para os seus familiares por um site da internet. Eles prometem entrega em até 1 semana. Você está tranquila, efetuou a compra com 2 semanas de antecedência. Os dias passam e nem sinal da sua encomenda. Voce já começa a se preocupar. Manda um e-mail para a central de atendimento. No mesmo dia chega uma resposta: "Esta é uma mensagem automática de nossos servidores. Por favor, não responda. Recebemos seu contato e pedimos gentilmente que aguarde o retorno em breve." Natal é tempo de gentileza! Então você aguarda gentilmente o retorno. Não há retorno. Os presentes não chegam. É noite de natal. Você explica sem graça que não trouxe presente para ninguém porque a droga do site não enviou a tempo. Escreve um e-mail nada gentil para a empresa.

Natal é tempo de encontro.

Família reunida! Trocam presentes, se enchem de peru e rabanada, falam mal da parente que não veio, assistem o especial da Xuxa e ouvem pela milésima vez o CD natalino da Simone. E a música lança a perspicaz pergunta: "Então, é natal. E o que a gente fez? O ano termina e nasce outra vez."

Apesar das ironias do natal, para mim esta é, de fato, uma data muito especial. Um feriado socialmente instituído para que abracemos uns aos outros sem constrangimento, sem parecermos bobos. E, como diz minha tia Neide, existe uma energia que flui entre as pessoas e devemos sempre nos cercar de pessoas que nos desejem feliz natal, saúde, paz. Esse é o sentido do natal. As pessoas que celebram a vida, desejando mutuamente uma paz que só encontram no momento do abraço.

Feliz natal (atrasado!)!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Amai-vos uns aos outros


"Que bela imagem nos chega de Barcelona, uma imensa fila de casais gays se beijando à passagem de Bento XVI. É tocante a imagem. Uma bela forma de protesto aos discursos retrógrados do papa, condenando a união homossexual e qualquer outra forma de amor não ortodoxo. As bobagens ditas pelo papa contra o uso de preservativos, por exemplo, beiram a irresponsabilidade. Não adianta que me falem de dogmas, ou de palavras proferidas em desertos por profetas ancestrais. Que se queira acreditar em virgens que procriam ou homens que caminham sobre as águas, tudo bem. Mas a mim, tudo isso parece uma grande bobagem que se leva a sério demais. E que acaba por desrespeitar alguns dos aspectos mais belos de nossa natureza humana, como o amor, exuberante e poderoso, imune às interpretações redutoras e moralistas das religiões.
Só posso me regozijar com as fotos que chegam de Barcelona, nas imediações da belíssima catedral projetada por Gaudí, cujo nome significativo, Sagrada Família, poderia ser compreendido por Bento XVI como uma dica de que a família, por mais sagrada, também muda e se transforma. Como tudo nesse mundo. Que os caminhos de Bento XVI sejam inundados por homens beijando homens e mulheres beijando mulheres. Que o amor atropele o papamóvel com a força transformadora da mudança. Que os beijos gays possam iluminar o papa, e que o façam lembrar-se das palavras do Cristo: Amai-vos uns aos outros.
Uma imagem, afinal, vale por mil palavras."

De Tony Bellotto
In: http://veja.abril.com.br/blog/cenas-urbanas/

Bem, e depois dessas sábias palavras do Bellotto eu só assino embaixo! hahah

domingo, 3 de outubro de 2010

Eleição de mentira

Acabo de exercer o meu direito obrigatório de votar. Disseram-me que tudo é discurso, e bem sei que discurso também é política e ideologia. Gostaria de transgredir os limites fantasiosos de direita e esquerda... hoje votei verde.
Tantos mas tantos papeis esparremados pelo chão com rostos e números dos respectivos políticos misturando-se a lama das ruas. Sujas ruas, boicote a lei que proibe a panfletagem no dia da eleição. Lembraram-me que a democracia que tanto nos orgulha aqui no Brasil é um teatro. Ofertam-nos personagens coadjuvantes nessa peça. Os protagonistas respondem aos que pagaram pelos papéis com suas caras bonitas na lama, não a nós.


No caminho com Maiakovski de Eduardo Alves da Costa

(...) Tu sabes, conheces melhor do que eu a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores, matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

(...)

Vamos ao campo e não os vemos ao nosso lado, no plantio.
Mas ao tempo da colheita lá estão
e acabam por nos roubar até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição de falso democrata
e rotulo meus gestos com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso, esconder minha dor diante de meus superiores.
Mas dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Rotas

Uma rota de fuga
Uma rota de colisão.

Ouço os malditos entoarem choro e riso:
Todos culpados, todos juízes.
Por vezes colidem com o roteiro de meus passos curtos,
Encurtam meus dias.
Em vidro translúcido me prendem
Eu vejo que é pelo medo e que de nada adianta
Uma prisão que desprotege o dentro e fora
Soltos como bichos.
Partimos e nunca chegamos.

E todos caminham tão rápido
E todas são as direções
Vamos nos perdendo uns nos outros
Como espelhos colidindo

No fim tudo é poeira branca,
Nem cacos
Rotas de fuga para a colisão.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Manhã

Nossos corpos, uma manhã
Despertamos para ansiar o dia
Impuros. Um quadro torto.
A face, os membros e a língua
Tudo atravessado por dentes e lábios
Que de juventude e sonhos preferimos não
O não saber, não dizer, só estar.
O não-dito dizendo sinceras elegias
A lástima do nascimento do novo
Em receoso buraco.

E era uma bela manhã de julho.
E fechava o mês
E abria caminhos
E reticenciava sentimentos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Socorro, não estou sentindo nada

Eu quis ser simples, não amar demais, não correr atrás de respostas. Fui caminhando devagar a passos leves, tomando cuidado para não pousar o pé em canto algum por demasiado tempo. Inventei a seguinte fórmula: encarar com sensatez e cautela o duradouro, enquanto que, em contrapartida, o passageiro seria o locus do extravasamento. Acho incrível como tamanho desequilíbrio pôde me levar a uma estável zona de conforto.

Admito que minhas desventuras não dariam nem boas notas de rodapé. Venho ensinando-me a conviver intimamente comigo, minhas palavras e nada mais; talvez, por isso, pressinto que elas perdem força. Sinto falta do desespero que te assalta o peito, do vergonhoso choro no ônibus só porque ele não disse as palavras certas, dos devaneios constantes, do poema de amor mal feito no meio da madrugada, da dor lancinante de querer fugir e sentir-se paralisada sabendo que o outro já está a léguas de distância. Que falta faz o abstrato.

Hoje eu me mexo quando e para onde prover, não reclamo, mas vejo-me muito concreta. Peço a Cássia Eller sua música emprestada para cantar o meu momento:

"Socorro - Cássia Eller
Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me entregue suas penas
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Em tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada, nada"


Gostaria de ser menos meta, seta, linha reta, afinal talvez o alvo nem me espere, como diria Paulinho Moska. Quero dizer “eu te amo”, quero me arrepender de ter dito.
Porque, cara, o ser humano é uma loucura mesmo. É estabelecer-se no ápice do contraponto, na iminência da mudança. Sinonimizamos o vazio e o completo, o certo e o errado, eles não nos servem. O que importa é jogar-se nesse jogo de quebrar, é estar em processo.

domingo, 13 de junho de 2010

O papel do artista


Hoje, na aula de teatro, conversamos sobre o papel do artista. Falamos sobre a magia da arte, do poder de seduzir, de provocar encantamento. E da sua função política, como veículo de reflexão crítica sobre o humano e seu meio.

Outro papel muito importante do artista é o de incomodar. O que por vezes passa despercebido ecoa aos olhos do artista, fazendo da arte o mistério daquilo que já conhecemos. Nas mãos do artista uma rosa não é só uma rosa, se transmuta em uma arma de espinhos ou em um beijo de pétalas. Por isso, se eu tivesse que traduzir a arte em um só sentimento, este seria o da perplexidade ante o cotidiano. O artista é aquele que sente o estranhamento como um estado constante de alma. Um ser inconformado que vaga em busca de significação. A lucidez do artista beira a loucura, penso. Enxergar além tem um preço, principalmente, quando se tem a consciência de que nunca se enxerga o bastante. Afinal, todo ponto de vista é a vista de um ponto (Leonardo Boff).

A vida é um jogo de regras relativamente estáveis. Começa assim que você entra em cena, cada passo seu repercute no jogo e você vai desenvolvendo seus movimentos na troca com o outro, dentro das condições de possibilidades do meio. A gente vai se percebendo nesse espaço, construindo um personagem que nunca é um mesmo. O existir vai se tornando habitual.

O que me lembra um poema interessante de R. D. Laing, assim:

“Eles estão jogando o jogo deles.
Eles estão jogando de não jogar um jogo.
Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão,
quebrarei as regras do seu jogo
e receberei a sua punição.
O que eu devo, pois, é jogar o jogo deles,
o jogo de não ver o jogo que eles jogam.”

Então o teatro burla essa regra do jogo, pois que é feito uma metavida.

O que te incomoda? Quais são as suas questões?, perguntou meu professor de teatro.
Por hoje essa é questão que me sorveu o dia: Qual é o papel do artista? ou melhor..

Qual é o meu papel e o da minha arte?

Bem, espero ter incomodado vocês, leitores. :)